domingo, 5 de fevereiro de 2012

Aquário


Passava horas olhando para além daquela enorme superfície cristalina.
Batia no vidro, vez ou outra, como se quisesse confirmar, com o seu toque infantil, que existia vida além daquele conjunto de monotonia. E conseguia, algumas vezes, sinais dela.

Acabava por sentir-se parte daquele todo. Dos peixes, das luzes que a água refletia desastrosamente e até mesmo das pequenas bolhas que dançavam, pelo vidro, a convidando para um universo que não lhe era palpável. Era tudo vida.

Não satisfeita, novamente dava pequenas palmadas no aquário, na tentativa de agitar a água e desarrumar toda aquela sintonia de cores. Queria desalinhar aquele mundo tão particular.

O vidro permanecia no lugar, porém, os elementos não suportavam os pequenos golpes. Por segundos, faziam-se diferentes, estranhos, para depois voltarem aos lugares que os pertenciam e lhes eram de direito, antes de tudo desandar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sete palmos de terra


Você tinha vida demais, Helena. Chegava até a me confundir com tal nível de entusiasmo. Era difícil de te acompanhar. E a saudade, essa saudade que me acompanha, me presenteia com cada traço teu no retrato. Traços estes que migraram  para o contrário dos nossos planos.
A gente só repara que o tempo passa entre um recordar e outro, olhando pela janela do carro. E com você foi assim. Notávamos, dia após dia, rugas nas nossas vozes. E você sempre falou aos montes. Sempre rasgando o silêncio, que não te pertencia. E eu gostava tanto e tanto. Gostava ainda mais quando finalmente silenciava e me olhava, compassando meu futuro com os olhos.
Parece que você não cicatriza nunca, Helena.

Eu vivo com esse receio do seu perfume voltar pros lugares de antes. Convivo com a vontade fixa de ver pelo menos mais uma vez o teu vestido caído no assoalho do quarto, numa daquelas tardes de verão.

Ah, Helena, eu queria. E quero.

Olha, mesmo você estando a sete palmos do chão, ainda te considero minha. E ainda te acho bonita. Bem bonita. Tão bonita que eu compraria um bilhete de trem e acenaria até o fim da plataforma, até o fim de mim, só pra te ver ali, Helena, no aguardo, se corroendo com a injustiça de estarmos separados.
Uma vida inteira nos separa. Um resto dela, na verdade.
Tudo perdeu a graça sem os teus corinhos pela casa, meu amor. Nada tem cor após o teu monossilábico adeus. Os cinemas parecem cheios demais, os cantos dos pássaros ficaram repetitivos e todas as mulheres perderam as curvas.

É tempo de esperar, afinal. Juntar os dias que me faltam e aguardar a minha partida. Por você tenho acreditado que há algo além da vida, do céu, do espaço, ou do raio que o parta. Tenho me iludido com isso só para ter a certeza de que vou ter a chance de me eternizar ao teu lado, Helena.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Olhos

Você apareceu nos meus sonhos. Citava alguns versos tristes e mudos, mas ainda assim, versos. Quase não o reconheci, também. Culpa dos olhos. Grandes caleidoscópios que acabaram por tomar o lugar do castanho habitual.

Eu tentei te escutar, atenta, como se a ausência de som não fosse empecilho para tanto. Eu gosto do silêncio. Você sabe.

Falou-me da Lua. A Lua. E do quanto estrelas não gostam de noites frias de junho. Pontos luminosos, deixou por assim chamar. Pontos luminosos não gostam de noites frias de junho.

Era simples. Inconcebível, até tal ponto. E posso dizer que aproveitei todas as minhas preocupações, porque ali, elas não existiam.
Era tempo de livrar-se dos filtros, nadar contra a correnteza. Não foi fácil.

Nos espremíamos para caber nas entrelinhas, e estas, não nos pertenciam. Entrelinhas asfixiam, são perigosas.

Eu vi os caleidoscópios perderem os tons, as cores. Séculos passaram por nós dois, sem licença alguma. Cada pedaço inacabado meu quer tentar fazer sentido pra você. Te remonto, mais algumas vezes, girando mais do que qualquer coisa que gira bastante. Os grandes caleidoscópios parando, perdendo novamente a cor, tomando forma. Eu quis entender o que eles queriam dizer. Girando e girando. Quis pedir para deixarem recado, escreverem um bilhete, mas teus olhos não eram mais os mesmos.

A chuva passou. Os séculos, também. Era tarde demais. Acordei um pouco tonta, entre um tropeço e outro, tentando encontrar algum sinal das cores dos teus olhos por ali.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sobre textos em branco.

Eu tô tentando dar um jeito de não falar sozinha. Essa é a real função dos blogs, acho.
Mas anda foda. Difícil com, ou sem temas. O meu cérebro trabalhava melhor durante aquelas madrugadas de Hey Arnold e Space Ghost. O Zorak me entenderia. Ele é o único, já que o meu caráter acabou sendo construído por meio das falas e bordoadas daquele inseto verde e gigantesco tão cheio de sarcasmo. Não sou sarcástica. Aliás, por que ele é daquele tamanho?
Isso poderia ser sobre Miami Vice e os ternos roxos que eles usavam. Porra, eu sairia com o A
mie Foxxx. Ele sim.


Poderia ser sobre o quanto o Steven Seagal odeia meliantes. Queria que isso fosse sobre o sorriso do Mark Hamill e a quantidade de adornos que eu colocaria nele. Por que o tempo precisa passar para essas pessoas? Por que a Molly Ringwald precisou engordar e ficar velha? Porra, então, o Jake de Gatinhas e Gatões teria papada, se realmente existisse?

Isso aqui poderia ser uma tese sobre a pancada de filmes que o Hughes faria se ainda estivesse vivo e sobre o quanto odeio parecer repetitiva com os meus textos.

Queria que vocês parassem de me olhar torto quando digo que acho o Morrison um chato. Que todas as garotas parassem de fingir que gostam de quadrinhos, quando na verdade, não sabem dizer sequer um episódio de Star Wars. Quando foi que isso ficou assim? E por que os caras preferem as vadias? Como essa cadeira veio parar aqui? Isso não é problema meu.
Queria ter nascido o Ney Matogrosso, só que heterossexual. Porra, eu queria ter temas. Queria o Ozzy ganhando um Nobel e fazendo algum cover dos Beach Boys.


Eu não sei. A vontade de escrever era grande. Descartem isso. 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Dá teu riso pra mim


Eu gosto de um menino
Que fala bonito
Tão bonito
Que me deixa assim
Sem palavras
Miúda
          e calada.

Eu faço versinhos
Pra ele
E canto corinhos
Que o guri nem nota
Sempre vai embora
E me deixa só
Por minha conta.

Queria te dizer
Menino dos olhos
Que eu escrevi as iniciais tuas
No muro da minha casa
E na agenda
Pra dar sorte.

Desculpa o mau jeito
Mas teu sorriso
É tão bonito
Fico na espera
De um riso
Destinado a mim
E mais ninguém.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Da beleza egoísta





É muito simples, na verdade: eu gosto tanto de tanta coisa.
Essa paixão funda que chega e preenche cada cantinho, me agrada demais. O meu peito gosta muito.

Eu somo os pedaços e divido, pra não me dividir. Eu, que tô egoísta, escrevendo tanto em primeira pessoa, desaprendi a brincar de narrativas com sujeitos e pretéritos que não me pertencem. Os outros são café com leite.

Tô me descobrindo devagarinho, narrando a minha vida pela primeira vez nesse tabuleiro de experiências tão próprias e falantes dentro do meu eu.
Sou lunática comigo mesma, louca com os meus botões e até jogar damas com a minha nobre pessoa – quem diria! – é um passatempo precioso.
Não enlouqueci, de forma alguma, mas parece-me que quanto mais lúcida a pessoa for, mais solitária e triste ela será.

Eu disse. Tô egoísta.

Mas me basta colocar os fones de ouvido e andar por aí que o altruísmo e a vontade de escrever sobre as minhas paixonites cotidianas reaparecem. Meus amores lindos, que vão desde as tangerinas mudas da quitanda em suas cores vibrantes até ao velhinho da Livraria da Vila e as ruguinhas de felicidade das crianças do orfanato aqui da esquina. Dentre os meus mil romances e melindres.

O meu coração que é mole demais. Deixo assim, pra me descobrir depois
.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Só pra lembrar.

E então eu pedi. Eu pedi pra que todas as palavras, todos os hinos, valsas, duetos e poemas que conheço, já li e ouvi, estivessem bem ali, comigo. Eu implorei pelo resto de inspiração esquecida no fim do meu túnel de desespero. E tenho feito isso há um tempo.
Com notinhas de rodapé.